segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

O exílio das palavras (poema de Isabel Furini)

O EXÍLIO DAS PALAVRAS


as almas silenciavam enquanto a civilização
afundava nas trevas do consumismo

e as trevas aumentavam
egocentrismo, ganância, remorso, medo e ódio
haviam sequestrado as palavras
os medos consumiam as almas
e ninguém transitava pelo caminho do amor

as palavras exiladas morriam e os homens
(aos poucos) emudeciam como as estátuas

e crescia o deserto sombrio das bocas amordaçadas
as pessoas buscavam as palavras nas ranhuras do tempo
nos desfiladeiros dos lobos, no oceano dos alfabetos
nas cavernas onde moram os morcegos
buscavam o Verbo – em vão

e a humanidade começou a observar o céu
e redescobriu o voo silencioso das aves

a música do vento, o perfume das flores
as coreografias das naves que atravessavam os mares
os movimentos dos escaravelhos
o uivar dos lobos, o voo dos condores
e  as danças criadas por primitivas civilizações

e os humanos redescobriram os abraços,
os sorrisos silenciosos e os apertos de mão

as palavras perdidas atingiam os corações
inventavam poemas e recriavam ilusões
e nessas engrenagens inescrutáveis do espaço e do tempo
os homens mudos aprendiam a linguagem
que os séculos cinzelaram nos espelhos

aprendiam que os movimentos de diástole e de sístole do universo
incluem palavras e silêncios.

Isabel Furini

Arte digital de Carlos Zemek - premiada em Buenos Aires, Argentina

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Profundezas - poema de Isabel Furini

Felizes os que são do mundo do Aqui e Agora
esses ditosos cujas mentes
moram
no instante real

porque poetas somos ficcionistas das palavras
e moramos
em outros universos
mundos dilacerados entre o futuro e o passado

poetas somos como estrelas-do-mar
tocados pelas ondas do Presente
navegamos
na zona intermareal

mas somos capazes de mergulhar nas profundezas abissais
onde o movimento do tempo
fracciona
todas as certezas
e só fica nosso eu desnudo - quase desamparado
mas coberto de pureza primordial.

Isabel Furini


Fotografia de Isabel Furini





Vestido de noiva no antigo cemitério - poesia de Isabel Furini





VESTIDO DE NOIVA NO ANTIGO CEMITÉRIO

As rendas brancas não são agitadas pelo vento
- rendas de um vestido (novo) de noiva
na capelinha
de um antigo e espectral cemitério

voam as Gárgulas nesse local decrépito!

um relicário guarda as lágrimas
de um funeral de atonia e espanto
só o vestido branco - imaculado
nesse ambiente destroçado pelo passar do tempo

só o vestido de rendas
permanece além dos cupins e além dos ventos
esse vestido branco é o espelho de uma promessa quebrada
- uma promessa de amor eterno.


Isabel Furini

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

POETISAS - Poema de Isabel Furini





POETISAS

As poetisas habitam nas nuvens,
na supefície da Lua,
nas crateras dos sonhos
ou em longínquas 
esferas alienígenas

esses locais são melhores 
para a alma

melhores que este inóspito mundo
onde o moinho da mediocridade
tritura (impiedosamente) 
a intectualidade
e a liberdade feminina.

Isabel Furini


terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Desapego - poema de Isabel Furini






DESAPEGO

I
O desapego é um prego.
Podemos observar e falar
ou experimentar a dor
de espetar o dedo com o prego-desapego.

II
Falar pode ser divertido,
mas vivenciar o desapego
é como ser agredido em um cerimonial asteca.
Os astecas arrancavam o coração dos escolhidos
para realizar oferendas ao deus Sol

III
A dor do desapego
pode ser incluída
entre os elementos que fazem parte
dos ensinamentos da vida.


Isabel Furini

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

O gato fofinho (poema infantil de Isabel Furini




O gato fofinho

Esse gato cor laranja
nunca anda pela rua,
nunca come empadão de frango,
e nunca mia à Lua.

Esse gato engraçado
fica sempre deitado
ele não corre os ratos
e não brinca com sapatos.

É um gato muito fofo
que a vó Assunta bordou
em uma linda toalha
antes de viajar ao Céu.

II

A vó Assunta chegou ao Céu
e ouviu os anjos cantar.
Aproximou-se contente
com suas agulhas e linhas.

Ela perguntou em voz baixa:

- O que eu posso bordar?
Um anjo tirou as sandálias
dizendo que desejava
que ela bordara estrelas.

Outro anjo, muito belo,
tinha um manto desbotado,
e apoiado em seu cajado
falou: - Eu gosto muito de gatos.

A senhora poderia
bordar lindos gatos
brincando com pequenos ratos,
entre flores coloridas?

Que alegria sentiu a vó Assunta.
E ela ainda está bordando
estrelas, flores,e gatos
entre as nuvens de algodão.

Isabel Furini

domingo, 31 de dezembro de 2017

Rosas para Adélia - poema infantil de Isabel Furini


ROSAS PARA ADÉLIA

Bem cedinho acorda Adélia
e sua máquina de costura
começa a cantarolar:
trac – trac – trac – trac
trac – trac – trac – trac

As rosas do jardim
suavemente exalam
um aroma de ternura
enquanto a professora Adélia
continua a ensinar

Sua máquina de costura
continua a cantarolar:
trac – trac – trac – trac
trac – trac – trac – trac

Isabel Furini


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...